Heróis do Salto no Abismo
Quando jovem, lá pelos idos de 1955, nos meus dezoito anos, idade para o Serviço Militar, juntamente com meu amigo Nilson Oliveira, inscrevi-me na Escola de Pára-quedistas. Seria o maior orgulho fazer parte daquele quadro de elite do Exército Brasileiro. Antes, o Maury, mais velho que nós, já tinha dado seu pulinho do avião. O Nilson era aquele companheiro pra tudo: passeios, cinema, jogos de futebol, peladas na praia. Era o amigo. Inscrição feita, provas de resistência terríveis: saltos de uma torre altíssima, rastejamento em terreno enlameado; subida em cordas sem o auxílio das pernas, enfim, uma loucura os testes físicos. Após concorrer com mais de cem candidatos e ser aproveitado entre vinte e cinco outros, um deles o Nilson, faltava a última prova. Como era um regimento “voluntariado”, e todos menores de idade, os pais teriam que assinar um documento autorizando o ingresso na Escola de Pára-quedistas. Todo animado, feliz, já me vendo no ar, seguro pelos tirantes do pára-quedas e lá em baixo o campo verde me esperando para as recepções de praxe, o que acontece? - O que? Saltar de pára-quedas? Você está maluco? Doido? Não quero ver você saltando de bonde andando, quanto mais pulando de avião... Não assino nem amarrado! Não crio filho pra isso, certo? - Mas papai! - Não tem papai nem mamãe! Não assino. - Papai, passei em todos os testes. Foi um enorme sacrifício. Provas físicas muito fortes. Você deveria até se orgulhar! - Me orgulho de você, sim. Mas, pulando de avião, nunca! E estamos conversados. E estávamos mesmo. Nada de pára-quedismo, nada de saltar de avião! Tempos mais tarde, foi-me dada a emoção de assistir, no campo de treinamento de Gramacho, ao primeiro salto de noventa soldados da Escola de Pára-quedistas – verdadeiro balé mágico de homens que encheram de arrojo e de coragem os céus daquele campo. Entre esses jovens, estava meu amigo Nilson Oliveira, que ia precipitar-se, pela primeira vez, do bojo de um avião. Enquanto aguardávamos apontasse no horizonte a aeronave que transportaria os saltadores, entabulamos conversações com oficiais e pessoas da família dos neo-pára-quedistas, que esperavam o momento do salto. Esse momento chegou. Enquanto o avião sobrevoava o local do exercício, o primeiro homem que se jogou no abismo. Um instante de expectativa e logo o pára-quedas se abriu e, balançando nos ares, veio cair próximo a nós o General Djalma Ferreira, que, beirando os 60 anos, ainda oferecia aos moços o exemplo de sua coragem. Cumprimentamo-lo e logo ele se retirou, pois o avião acabava de lançar nos ares mais três homens, um dos quais pudemos identificar como o Coronel Santa Rosa, que chefiara a tropa e tinha seu pára-quedas envolto na bandeira nacional, em comemoração ao 82º pulo. O Coronel Santa Rosa conversou com os presentes, explicando a todos a técnica dos saltos e respondendo às perguntas de alguns curiosos. Mas outro avião sobrevoava, agora, o campo, lançando um a um os novos soldados-do-ar. O pai do meu amigo Nilson esteve por instantes com a respiração suspensa e logo soltou um longo suspiro de alívio, quando o último pára-quedas branco se abriu e, como um belo guarda-sol, desceu até tocar o solo. Entre eles, seu filho. Neste instante, já estávamos mais descansados, pois nosso artista tinha entrado em cena e se saíra otimamente. Ficamos a esperá-lo e daí a pouco chegava Nilson feliz, e nós felizes em vê-lo, iniciando uma das mais perigosas e audazes carreiras dentro do Exército Brasileiro. Foi um espetáculo inesquecível. Vimos a maravilhosa coragem daqueles rapazes que se desprendiam de um avião como um bólido e desafiavam a morte, se bem que preparados, devidamente, para o que faziam. Eram, legitimamente, donos do espaço. São homens, máquinas, céu, bravuras e movimento, com direito a brasões e honrarias. Mas a emoção maior estava por vir. Ao receber seu brevê, colocado na lapela pelo Coronel Santa Rosa, Nilson dirigiu-se a mim, tirou de seu peito a comenda e colocou-a em minha lapela. - Este primeiro salto, meu amigo, foi dedicado a você. É seu. Senti você a meu lado quando pulei do avião. Depois das provas por que você passou para ingressar aqui na Escola, embora você não tenha saltado, você também merece um brevê. E me abraçou. E choramos juntos. (Texto extraído do livro “ Heroísmo do Salto no Abismo”)
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